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Os Pioneiros

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(Escrito por: Comissário Carl S. Eliasen - extraído do livro "A imagem do Cruzeiro Resplandece")

 Os Pioneiros

"Sai da tua terra, da tua parentela
e da casa de teu pai,
e vai para a terra que te mostrarei". 
(Gênesis 12:1)       

          Vejamos algo mais sobre as pessoas de David e Stella Miche, que, subjugados por uma vocação incoercível, já numa idade em que não se recrutam pioneiros, deixaram a Europa, sobretudo a sua bela Suíça, para vir plantar as sementes das quais surgiriam os frutos hoje abençoados do Exército de Salvação.

          David, o moço helvético, filho varão único de uma abastada família de agricultores, muito naturalmente sonhado por seus pais para ser o continuador de uma velha estirpe de cultivadores do solo, submeteu-se garbosamente às inspirações de Deus e, abandonando às irmãs a herança avoenga, cruzou os mares para dar cumprimento à Grande Comissão de Jesus: "Ide fazei discípulos de todas as nações..." (Mateus 28: 19).

          Stella, sua esposa desde 5 de abril de 1905, também provinha de uma família rica. Embora seus pais fossem de confissão evangélica, a princípio opuseram-se fortemente à associação de Stella com o Exército de Salvação. Ela era mais instruída e de caráter mais expansivo do que David; porém, como acontece nos casamentos feitos no verdadeiro temor do Senhor, eles se complementaram no matrimônio, chegando a constituir um casal consagrado, unido em amor e fé para uma grande obra missionária.

          Não foram nem leves nem fracos os obstáculos a vencer, pois, além de tudo, os Miches não dominavam o vernáculo de Camões. Uma a uma, não obstante, com esforço hercúleo, venceram as dificuldades e iam recrutando reforços para a efetivação da tarefa evangelizadora e humanitária que perseguiam.

          Antes de deixar a Suíça rumo ao Brasil, Miche tinha-se comunicado com uma moça de nome Ana Huber, solteira, nascida no Rio de Janeiro e aí radicada, porém tendo estado várias vezes, por longos períodos, na Europa. Sua residência havia-lhes sido comunicada por um Pastor de Berna.

          Mademoiselle Huber, como chegara a ser carinhosamente conhecida, esperava-os no cais do porto, mas um mal-entendido fê-los desencontrarem-se. Felizmente os recém-chegados tinham o endereço da senhoria de onde ela morava: era em Niterói, do outro lado da baía.

          Mlle. Huber era professora, mulher decidida, muito inteligente e culta. Poliglota notável, pois além do alemão, sua língua materna, dominava o português, o francês e o inglês. Tendo uma experiência religiosa profunda, zelosa pela causa do Evangelho, tornar-se-ia uma auxiliar preciosa para o casal pioneiro, chegando a ser nomeada eventualmente "Enviada" (designação que se dá no Exército de Salvação às pessoas leigas que se dedicam integralmente à obra). Além de dar uma ajuda imprescindível nos assuntos lingüísticos, incluindo traduções para o "Brado de Guerra" em português de artigos publicados em francês e em inglês extraídos de outros periódicos salvacionistas, a Enviada Huber atuou longamente como a principal arrecadadora de fundos, consagrando muito tempo a esse trabalho. Ela cumpria muito conscientemente o seu dever, reduzindo suas despesas ao mínimo, preocupada não somente em receber donativos, mas também em exercer uma influência espiritual sobre as pessoas, abastadas na sua maior parte, às quais ela solicitava apoio.

          Após algumas semanas, durante as quais o casal Miche recebeu em Niterói a hospitalidade de uma família evangélica, uma casa fora alugada na rua Andrade Neves. Não era certamente um imóvel novo, longe disso. A "Fazenda" ainda tinha as dependências previstas para os escravos - espaço não faltava e o jardim permitia o cultivo de flores. Numa certa época, três famílias de oficiais ali puderam residir com relativo conforto.

          Quando em 1920 o Coronel Carl Treite viera em sua visita exploratória, fora-lhe apresentado um jovem suíço de origem alemã chamado Christian Balmer, instruído, sério, de excelente saúde, que chegara ao Brasil após um bom preparo como homem de negócios primeiramente na sua pátria, depois na Alemanha e por fim na Inglaterra. Encontrava-se empregado em Santos, o Porto do Café, em um cargo de confiança de uma Sociedade de Exportação, vivendo uma vida exemplar apesar de encontrar-se em um meio onde os costumes não eram dos melhores. Christian traduzira o visitante Treite nas duas igrejas evangélicas de Santos e o acompanhou também nas suas visitas às casas de comércio que lhes deram apoio. Não é de admirar portanto que o Coronel, de volta à Europa, recomendasse o jovem ao Quartel General Internacional, pois falando além do português, o alemão, o inglês e o francês, poderia tornar-se no futuro um grande colaborador. Com efeito, assim aconteceu. Na época em que o Coronel Miche veio ao Brasil, a notícia de sua chegada foi comunicada de Londres ao jovem Balmer e o Secretário Internacional não deixou de enviar-lhe formulários a serem preenchidos pelos Candidatos à função de oficial! Renunciando a sua segurança material e a um futuro promissor nos negócios, o jovem suíço, de tão nobre coração, preencheu os documentos, pondo-lhes a sua assinatura e enviou-os ao Coronel Miche, cujo endereço lhe tinha sido comunicado. Pouco tempo depois, chegando do Rio de Janeiro os "Artigos de Guerra" (compromisso de fé e disciplina que deve ser tomado por todo soldado do Exército de Salvação), o jovem Balmer os subscritou igualmente. Recebeu, então, um par de "Ss" metálicos para serem presos na lapela de seu casaco, o que ele não deixou de fazer. Enfim, veio o convite para abandonar tudo e dirigir-se ao Rio para tornar-se, depois de um período de formação e treinamento como Cadete, o primeiro oficial do Exército de Salvação recrutado no Brasil. Christian Balmer partiu para a Capital no início de outubro de 1922; e em 1925, com o grau de Capitão, foi por um período de um ano ao Colégio Internacional de Cadetes, em Londres. Casou-se em 28 de novembro de 1929 com a Capita Maria de Gloor, de quem enviuvou nove anos depois; contraindo mais tarde segundas núpcias com a Ajudante Hanna Kubli. Ambas as suas esposas foram também de nacionalidade suíça.

          Passados vários anos, por ocasião da sua aposentadoria e partida para o seu país natal, depois de uma carreira notável como servo do Senhor, o Brigadeiro Christian Balmer analisaria assim as razões de sua obediência que foi certamente qualificada de imprudência louca por muitas pessoas: "Eu sentia um desejo ardente de responder ao apelo do Mestre da colheita, que carecia de obreiros!"

          Nós que tivemos a honra e o privilégio de conhecê-lo, certamente o recordamos com o comentário que a mulher sunamita fez sobre o profeta Eliseu: "Este que passa por nós é santo homem de Deus" (2 Reis 4: 9). Quando Balmer era diretor do Lar das Flores, costumava retirar-se freqüentemente ao campo para orar. As crianças que brincavam no mato ouviam de repente um barulho e viam um movimento entre os arbustos, pensavam que era uma vaca ou outro animal errante; ao se aproximarem, porém, encontravam o diretor ajoelhado em conversa íntima com o seu Deus!

          Um outro vínculo salvacionista encontrado pelos pioneiros na chegada, foi o casal Carl William e Sara C. Cooper, um ex-oficial do Exército de Salvação nos Estados Unidos (onde fora inclusive Oficial Dirigente do famoso Corpo de Bowery. em Nova York), que no início do século veio ao Brasil junto com a sua esposa, missionária, na qualidade de Pastor evangélico, já que a obra salvacionista ainda não estava estabelecida aqui. Havia anos que este casal orava pela vinda do Exército, pois o chamado deles era para esta terra.

          Eles não tinham filhos, pelo que, ainda nos Estados Unidos, adotaram uma menina órfã; logo, aqui chegando, encantaram-se com uma outra garotinha mulata a quem deram o nome de "Blossom". Com estas duas crianças e outras que acolheram em seu próprio lar, menores carentes que os chamavam amorosamente de "Daddy" e "Mother" (papai e mamãe) e que rapidamente aprenderam o inglês, nasceu o "Blossom Home" (Lar das Flores), que, finalmente em 23 de março de 1916, instalou-se em Suzano. a uns quarenta quilômetros de São Paulo, numa vasta propriedade comprada a bom preço numa época quando os terrenos tinham muito pouco valor.

          Poder-se-ia bem dizer que os Cooper se tornaram também "Daddy" e "Mother" para o infante Exército de Salvação brasileiro e o "Blossom Home", um refúgio para onde muitos dos nossos oficiais acudiram eventualmente a fim de revigorar as forças em dias de férias e retiros espirituais. Abro aqui um parêntese para incluir uma nota pessoal: em 1926, meus pais passaram a sua "lua de mel" no "Blossom Home" e, 28 anos mais tarde, minha esposa e eu repetimos a façanha!

          Em 1937, o Lar das Flores foi transferido definitivamente para o Exército de Salvação, com Christian Balmer como o primeiro diretor, funcionando até hoje como uma instituição de prestígio. Centenas de crianças têm passado por lá, muitas delas chegando a ser cidadãos dignos que integram a sociedade.

          Pelo seu trabalho missionário, Sara e Carl Cooper procuraram fazer do Brasil um verdadeiro jardim, especialmente no que tange às crianças e jovens. Eles faleceram com idade avançada, 84 e 98 anos respectivamente, e foram sepultados no cemitério de Suzano. Os versículos escritos nos túmulos são simbólicos destas vidas consagradas: "A minha paz vos dou" (João 14:27) e "Preciosa é aos olhos do Senhor a morte dos seus santos" Salmo 116: 15).

          A imigração alemã começada em 1824 continuou no decorrer dos anos quase sem interrupção. Os colonos germânicos -e esforçaram por manter seus caracteres étnicos, seu modo de  vida e, sobretudo, sua língua com escolas onde se ensinava o alemão e igrejas onde se pregava nesse idioma.

          Entre os imigrantes chegou um ex-oficial nosso, da Alemanha, Dimitri Heuer, que com a sua esposa veio ao Brasil devido a problemas de saúde. Fixara residência na cidade industrial de Blumenau, construída às margens do rio Itajaí. Tendo conservado o espírito austero, próprio de um verdadeiro savacionista, o casal Heuer, apesar da sua idade já avançada, abriu sua modesta moradia aos vizinhos para anunciar-lhes o evangelho e pregar-lhes a conversão. Quando Heuer, já velho, soube da chegada ao Rio do seu querido Exército, pediu por carta que enviassem oficiais a Blumenau. Renovou esse pedido com insistência por diversas vezes e. um belo dia, cansado de esperar a chegada de um oficial, resolveu fazer da sua própria casa a igreja do Exército de Salvação. Evidentemente qualquer oficial que viesse futuramente deveria falar o idioma alemão.

          Os Coronéis Miche decidiram visitar a região de Santa Catarina, pelo que embarcaram em um pequeno navio de cabotagem, o "Anna", rumo a Itajaí, o porto mais próximo de Blumenau, distante ainda aproximadamente cinqüenta quilômetros. Chegados ao destino por estradas primitivas - cinco horas de viagem em ônibus desconfortável - foram recebidos pelo casal Heuer com a maior cordialidade. Uma conferência sobre William Booth e o Exército de Salvação foi anunciada para aquela mesma noite a ser realizada no teatro da cidade; outra, para o dia seguinte, em outro local. No terceiro dia, no transcorrer de uma reunião mais íntima convocada na residência dos Heuer, o Coronel anunciou em favor destes sua promoção ao grau de "Enviados" com a responsabilidade oficial pelo Corpo vanguarda de Blumenau. Prometeu enviar oficiais o mais breve possível.

          Esse trabalho deu frutos valiosos para o Exército de Salvação no Brasil, mormente por meio de uma jovem, Hedwig. filha de um outro casal de salvacionistas, que tivera filhos oficiais tanto na Alemanha como aqui: os Sargentos Heinzle. Eis o testemunho da moça: "Nas reuniões realizadas para crianças e jovens, na minha cidade, cheguei a compreender a finalidade da organização e, com catorze anos, resolvi fazer parte como membro do Exército de Salvação, sendo alistada como soldada no Corpo de Tuttlingen (Alemanha) onde participei das atividades durante dois anos.

          "Naquele tempo meus pais resolveram emigrar para o Brasil. Em junho de 1926 iniciamos a longa viagem marítima embarcando em Bremerhaven para chegar ao porto de São Francisco do Sul, SC, após um mês. De lá prosseguimos para Itajaí e, finalmente, Blumenau. Nosso alvo era a floresta virgem.

          "Por acaso encontramos nessa cidade o Enviado Heuer, que nos disse que o Exército de Salvação ainda não havia sido oficialmente estabelecido nessa localidade. Apesar disso, ele dedicava todo o seu tempo livre para a proclamação do evangelho. Aconselhado por Heuer, meu pai adquiriu uma colônia em um subúrbio chamado Itoupava-Norte. Lá construímos a nossa primeira moradia.

          "Junto com o Enviado formamos o primeiro grupo salvacionista em Blumenau. Numa avançada vizinha à nossa casa, realizavam-se reuniões para crianças e adultos, nas quais participamos ativamente. O nosso domingo pertencia a Deus, e nesse dia a nossa atividade estendia-se desde a manhã até a noite à cidade. Muitas vezes não era fácil, pois o trabalho na colônia e o programa da semana exigia muita força. O domingo era o único dia no qual se podia descansar um pouco, mas meus familiares e eu fazíamos esses esforços para Deus e o próximo com muita boa vontade.

          "Naquele tempo a caminhada desde Itoupava-Norte apresentava certos riscos. Era necessário atravessar o Itajaí-Açu de canoa ou balsa, e à noite esta travessia tornava-se às vezes perigosa, especialmente em épocas de enchentes.

          "Três anos se passaram e mais uma vez tornou-se necessária uma despedida. Senti que Deus me chamava para o serviço integral como oficial. Por isso viajei para o Rio de Janeiro a fim de entrar no Colégio de Cadetes. Após certo tempo de estudos e preparação, fui comissionada Tenente em 10 de julho de 1930".

          Hedwig Heinzle casou-se com o Capitão Armando Silva, no dia 7 de outubro de 1937; tendo esse falecido dez anos e meio depois, deixando a sua esposa viúva com quatro filhos. Mulher valente e dinâmica, a Sra. Silva não se amedrontou, chegando a ocupar postos de relevo na direção e administração da obra por longos anos. Em 1979, casou-se novamente com o Coronel William Effer, ex-Chefe Territorial, viúvo e aposentado, residente no Canadá.

          A obra de Blumenau estendeu-se a Joinville e lá tem permanecido por meio de um Corpo salvacionista, que através dos anos tem dado fiéis camaradas, famílias inteiras como os Kursawe, Tavares e Wunderlich. Lá houve uma boa banda, brigada de cantores e até um belo agrupamento de escoteiros e bandeirantes. 

Nota:  Em junho de 1939, nossos escoteiros e bandeirantes de Joinville estiveram no Rio de Janeiro participando em um encontro de 4.000 dessa agremiação, vindos de diversos Estados, para render homenagens ao Excelentíssimo Presidente da República, Dr. Getúlio Vargas: (ver também Brado de Guerra de 15 de abril de 1940, pág. 4. A Revista "Rumo" de maio 2002 anunciou a formação de um Grupo de Escoteiros do Exército de Salvação (GEES). em Recife, reunindo crianças e jovens do CCI (Centro Comunitário Integração), das comunidades José de Holanda. Mangueira e Santa Luzia. 

          Por anos mantivemos também na cidade de Joinville um albergue para homens que, em 15 de outubro de 1963, transformou-se no Lar de Meninos "João de Paula", transferido de Porto Amazonas, PR. As novas dependências desse lar, em terreno doado pela Prefeitura, foram inauguradas em 25 de setembro de 1982.

          É importante registrar que, no final de 1935, o Tte.-Coronel Johannes Hein, da Alemanha, que no futuro viria a ser Chefe Territorial no Brasil, também visitou Santa Catarina em uma viagem que incluiu a Argentina e o Paraguai.

          O objetivo dos Coronéis Miche era da maior amplitude: colocar o povo brasileiro em contato com o poder misterioso, mas eficaz, do Espírito de Deus a fim de que esse Espírito os despertasse para a vida eterna. Pretendiam também minorar, no que fosse possível, a miséria e socorrer os infelizes. Certos de que não poderiam por si só realizar grande coisa, esperavam recrutar militantes dedicados e audaciosos entre os brasileiros prontos para o sacrifício e para o árduo trabalho. Os fardos da responsabilidade faziam com que David Miche às vezes se sentisse deprimido. Se ao menos tivesse ele podido aprender a língua do país! Infelizmente porém, e ao contrário de sua esposa, ele nunca o conseguiu. Mas pela oração, leitura e meditação sobre as Sagradas Escrituras, o pioneiro corajoso renovava sua energia espiritual e recebia a força para ir avante. Nove meses depois da sua chegada, ele escreveu: "O Exército de Salvação tem diante de si uma grande obra. Que Deus nos ajude a sermos instrumentos para elevar o nível moral deste povo, trazendo-lhe uma mensagem de salvação por Jesus Cristo".

Leva tu contigo o nome
De Jesus, o Salvador,
Este nome dá conforto
Hoje, sempre e onde for

 

 






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